As lições do esporte para o mundo em 2021


O que torna o esporte tão popular é, acima de tudo, sua capacidade de emocionar. As expectativas geradas, a catarse da vitória e até a frustração pelo resultado não alcançado mobilizam pessoas em todo o mundo. Mas não são apenas sentimentos que ele oferece. Seja através de seus feitos, de atitudes e de suas declarações, os atletas também passam mensagens. E em 2021 elas foram tão importantes quanto títulos e medalhas.

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Os Jogos de Tóquio estão aí como prova. Nenhuma medalha repercutiu tanto quanto as palavras de Simone Biles e sua decisão de abandonar a final por equipes e não participar de outras quatro finais. A ginasta conquistou apenas um bronze (trave), mas deixou o evento com uma mensagem poderosa:

— Eu digo ‘Coloque a saúde mental em primeiro lugar’. Porque se você não fizer isso, não vai gostar do seu esporte e não terá o sucesso que deseja. Portanto, às vezes é normal até mesmo ficar fora das grandes competições para se concentrar em si mesmo, porque isso mostra o quão forte é um competidor e a pessoa que você realmente é — afirmou o maior nome da ginástica americana após ter deixado a final por equipes.

Biles, que perdeu a noção de espaço e de movimento durante as piruetas (efeito chamado de torção), levou o mundo a debater sobre a importância de cuidar da saúde mental. Se desta vez não encantou com seus saltos, por outro lado fez com que percebessem o que deveria ser óbvio: super-heróis só existem na ficção. Seres humanos sentem as pressões e todas as adversidades que se apresentam diante de si. E — o mais importante — não são obrigados a agir como se fossem imunes a elas.

O exemplo de Osaka

A ginasta se inspirou em outro exemplo do esporte. O debate sobre saúde mental já havia ganhado força em maio, quando a tenista então número 2 do mundo Naomi Osaka abandonou Roland Garros, um dos quatro Grand Slams do circuito. Inicialmente, ela pretendia apenas não conceder entrevistas durante o torneio. Insatisfeita com a multa recebida pela organização (atender a imprensa é obrigatório), decidiu encerrar sua participação. Ela havia vencido a partida de estreia e se preparava para a segunda.

“A verdade é que tenho sofrido longos períodos de depressão desde o US Open de 2018 e tive muita dificuldade em lidar com isso. Todos que me conhecem sabem que sou introvertida. E todos que me viram em torneios notam que geralmente estou com fones de ouvido, porque ajudam a aplacar minha ansiedade mental. Embora a imprensa especializada em tênis tenha sempre sido carinhosa comigo (e quero me desculpar sobretudo com os jornalistas legais que possa ter magoado), não sou uma oradora natural e tenho enormes crises de ansiedade antes de falar com a imprensa. Fico realmente nervosa e acho estressante me conectar e dar as melhores respostas que gostaria”, escreveu a japonesa em carta publicada em suas redes sociais.

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É possível que Biles e Osaka tenham influenciado uma a outra. Pois, um mês depois dos Jogos de Tóquio, a tenista anunciou uma pausa na carreira. Ela, que já não vinha performando bem nos torneios pós-Roland Garros, decidiu parar depois da eliminação no US Open. Alegou já não se sentir feliz com as vitórias. O hiato durou até três semanas atrás, quando a japonesa retomou os treinos de olho no Aberto da Austrália, a partir do próximo dia 17.

A perseverança dos brasileiros

Enquanto as estrelas internacionais mostraram a importância do respeito aos nossos limites, os brasileiros levaram a mensagem da perseverança. As trajetórias de Bruno Fratus (natação), Hebert Conceição (boxe) e de Carol Gattaz (vôlei) em Tóquio podem ser consideradas triunfos de quem não se deu por vencido.

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Fratus precisou ir à terceira final olímpica seguida para, enfim, pôr a tão sonhada medalha no peito. Um bronze que, pela explosão de felicidade ao fim da prova, mais parecia ouro.

Quem levou uma medalha dourada foi Conceição. Uma conquista num momento em que muitos já davam a derrota como certa. Menos ele. Massacrado nos dois primeiros rounds, resistiu e acertou o queixo do adversário. Nocaute.

Gattaz levou prata. Aos 40 anos. Depois de ter sido cortada da seleção em Pequim-08 e de ter ficado fora da lista final em Londres-12 e no Rio-16. Não desistiu.

— Essa medalha demonstra que nada é impossível — disse após subir no pódio.

Bruninho e a intolerância

Mas não foram só mensagens motivacionais que o esporte brasileiro ofereceu em 2021. Veio da história protagonizada por um garoto de 8 anos aquele que talvez seja o recado mais urgente: rivalidade tem limites. O país se chocou quando torcedores xingaram e cuspiram em Bruno Nascimento, de 8 anos, na arquibancada da Vila Belmiro. Seu crime? Santista, ganhou uma camisa do goleiro Jailson, do Palmeiras, após o clássico. O menino até gravou um vídeo de desculpas.

A comoção foi geral. Clubes e ídolos (como Neymar, Gabigol e até Pelé) enviaram mensagens a Bruninho. Que este episódio ao menos tenha servido para trazer reflexão. A intransigência não pode ser maior que o encanto. Seja em 2021, em 2022 ou em qualquer outro ano.



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