Em 2021, brasileiros batem recorde de investimentos no exterior


RIO — Os brasileiros nunca investiram tanto no exterior. O desejo de proteger o patrimônio de uma inflação que já supera os 10% ao ano tem alimentado a busca por aplicações fora do país. Com a maior demanda, gestoras apostam no lançamento de fundos internacionais voltados para o público geral, não mais apenas para investidores qualificados.

O patrimônio investido no exterior cresceu 28,7% em novembro, em relação ao mesmo mês de 2020, e atingiu o volume recorde de R$ 827,19 bilhões. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

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Em 2021, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, acumulou queda de 11,92%. Na renda fixa, apesar de a Selic estar em 9,25%, investimentos indexados pela taxa básica de juros renderam apenas 4,42% no ano.

Enquanto isso, o dólar subiu 7,47% em 2021. E o índice S&P 500, que reúne ações das bolsas de Nova York e Nasdaq, avançou quase 30%.

— Há uma variedade de ativos lá fora muito maior do que no Brasil, em um ambiente de maior estabilidade. O brasileiro médio se acostumou há pouco tempo a investir nas ações brasileiras, e agora está começando a se sofisticar — explica Marcelo Weber, CEO da Invexa Capital.

A gestora lançou em dezembro dois fundos de Brazilian Depositary Receipts (BDRs) para investimento direto por cotistas. São certificados que representam ações emitidas por empresas em outros países.

A Icatu Vanguarda também lançou recentemente um fundo multiestratégia, com renda fixa e ações, entre outros ativos, todos no exterior. Gerente de portfólio da gestora, Fernando Palermo considera a internacionalização dos investidores brasileiros um movimento natural do mercado.

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A Bolsa brasileira, a B3, registrou no terceiro trimestre de 2021 3,3 milhões de CPFs cadastrados, um aumento de 30% em relação ao mesmo período de 2020 e recorde histórico. Para Palermo, depois de se adaptarem ao universo da renda variável, é natural que as pessoas físicas busquem novas opções de aplicações:

— A ideia da diversificação é estar exposto a ciclos diferentes. Mesmo se o Brasil estivesse em um bom momento, faz sentido ter uma parte dos recursos no exterior, porque enquanto um está mal, o outro está bem, e na média isso vai gerando retornos positivos.

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É de olho nesse novo perfil de investidor que a Nextep, gestora focada exclusivamente na gestão de portfólio de ativos globais, decidiu abrir seu fundo internacional para aplicações a partir de R$ 1 mil. Criado em 2009, ele antes exigia valor mínimo inicial de R$ 50 mil.

— Quem está no Brasil e só investe em ações aqui está perdendo a maior parte da festa. A capitalização de mercado da B3 é 1% da Bolsa mundial. Além disso, boa parte dos itens que compõem a inflação sofre forte influência do dólar. Eu não sei se o investidor tem essa consciência, mas certamente esse é mais um dos motivos para alocar parte dos recursos em dólar — explica Rodrigo Lobo de Andrade, sócio da gestora

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Atenção à volatilidade

E para atrair os investidores mais conservadores, a Urca Capital Partners pretende lançar ainda no primeiro semestre um produto para aplicação em imóveis nos Estados Unidos. Trata-se de uma companhia de investimento: uma no mar que comprará empreendimentos como shoppings a céu aberto na Flórida, por exemplo. A companhia fará uma oferta pública inicial de ações (IPO) em uma Bolsa americana e terá um BDR negociado no Brasil.

— Em vez de o investidor comprar uma cota do fundo, vai comprar uma ação da companhia. E receberá dividendos em dólar. É um produto que não existe no mercado brasileiro hoje — diz Leonardo Nascimento, sócio da Urca Capital Partners.

A maior oferta de produtos no exterior também passou a fazer parte da estratégia das corretoras. A XP, por exemplo, dobrou a quantidade de fundos internacionais em 2021, de 90, com R$ 13 bilhões sob gestão, para 180, com R$ 26 bilhões. Para este ano, a meta é atingir R$ 50 bilhões.

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Thiago Penna, sócio-fundador e CEO da 3A Investimentos, ressalta que este ano será “muito desafiador”, devido a eleições, quadro fiscal e retirada de estímulos financeiros nos EUA. Mas pondera que o investimento no exterior deve ser feito de forma gradual:

— Não é preciso ficar ansioso e mandar 100% para aplicações no exterior. O dólar beirou os R$ 5,70, mas pode não se manter neste patamar.

Nascimento, da Urca, alerta ainda que o investidor estará exposto à volatilidade do dólar e que a liquidez pode não ser imediata.

Conheça os investimentos internacionais mais atrativos aos brasileiros:

Certificado de Depósito Brasileiro (BDR)

O BDR, ou certificado de depósito de valores mobiliários, é um ativo emitido no Brasil que representa outro ativo emitido por companhias abertas, ou assemelhadas, com sede no exterior. É uma forma de o investidor comprar diretamente na Bolsa brasileira ações negociadas nos mercados internacionais. Alguns BDRs disponíveis na B3 são da Alphabet Inc. (Google), Amazon, Tesla, Apple, entre outros.

Exchange Traded Fund (ETF)

O ETF de Ações, também conhecido como Exchange Traded Fund, é fundo negociado em Bolsa que representa uma carteira de ações que busca retornos que correspondam, de forma geral, à performance de um índice de referência. Assim, o investidor pode comprar cotas de um fundo que seja lastreado, por exemplo, nos índices de ações de Nova York.

Fundo cambial

São fundos de investimentos que têm, no mínimo, 80% de seu patrimônio investido em ativos que sejam relacionados, direta ou indiretamente (via derivativos), a moedas estrangeiras ou à variação de uma taxa de juros chamada de cupom cambial.

Fundo de investimento no exterior

Englobam os fundos ETF, cambiais, de BDRs e multimercado com patrimônio investido no exterior. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deve editar no primeiro semestre deste ano uma nova regra de fundos de investimento, com mudanças para facilitar a diversificação do portfólio. Entre as possibilidades estudadas está a autorização para que fundos destinados ao público em geral possam aplicar 100% dos recursos no exterior.

Fundo de investimento imobiliário (Reits)

Os Reits são empresas que operam rendas provenientes de imóveis nos Estados Unidos. Funcionam de forma semelhante à dos fundos imobiliários. No Brasil, é possível investir nessas companhias através de ETFs ou BDRs.



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