Na pele de Cyrano, Peter Dinklage louva o amor e pede a paz aos fãs de ‘Game of thrones’: ‘É ficção’


Peter Dinklage não se considera um cantor, e a luta de espadas está longe de ser sua especialidade. Mas a oportunidade de dominar essas habilidades foi o que o atraiu em “Cyrano”, no qual o ator interpreta o personagem principal.

— Preciso me sentir intimidado. Qualquer coisa que me assusta, atrai meu interesse — explica.

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O ator de 52 anos encarnou o personagem pela primeira vez em uma peça musical escrita e dirigida por sua esposa, Erica Schmidt, com canções compostas por membros da banda The National. Agora, essa versão de “Cyrano” foi transformada em um filme luxuoso dirigido por Joe Wright (“Desejo e reparação”). Na trama, o personagem-título corteja secretamente seu verdadeiro amor, Roxanne (Haley Bennett), através de cartas enviadas pelo soldado Christian (Kelvin Harrison Jr.).

Embora o novo filme mantenha o cenário da peça de Edmond Rostand de 1897 na qual foi baseado, Dinklage detecta muitos paralelos modernos.

— É exatamente o que fazemos hoje com o namoro online, montando perfis que não são exatamente fieis — avalia Dinklage. —Todos fingimos ser outras pessoas de alguma forma.

Mas poucos fingem melhor do que Dinklage, quatro vezes vencedor do Emmy pelo papel do astuto Tyrion Lannister, de “Game of Thrones”.

— “Game of Thrones” não era realmente um programa de TV,  era quase a minha vida — diz o ator. — Minha família ficava na Irlanda seis meses por ano, por quase 10 anos. Você cria raízes, minha filha tinha uma escola lá. Ela desenvolveu um sotaque irlandês, porque passava o dia com crianças irlandesas.

Ainda assim, em uma conversa recente por videochamada, Dinklage vê a vida pós-“Game of Thrones” como libertadora.

— Você sente esse vazio, mas também pensa, “Uau, eu não tenho que fazer isso, então o que vou fazer agora?”

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Leia trechos editados da entrevista.

Sua esposa, Erica, estava bastante adiantada na adaptação de “Cyrano” quando você decidiu se juntar ao projeto. O que te convenceu?

Sim, ela foi contratada para escrever uma adaptação de “Cyrano,” e decidiu reduzir ao essencial, substituindo os longos monólogos sobre amor por canções de amor. Mas finalmente consegui me conectar quando ela se livrou do atributo mais famoso de Cyrano, obviamente o nariz falso no rosto do belo ator.

Eu sou um ator, já usei próteses antes, mas a ideia dessa não batia. Eu sempre pensava, “Qual o ponto? Você tira isso no fim do espetáculo.” Então Erica tirou e pensei como queria fazer esse papel, porque agora é sobre um cara que não sabe o que fazer diante do amor, que não tem ninguém a culpar além de si mesmo.

O que você quer dizer com isso?

Peter Dinklage e Haley Bennett em 'Cyrano' (2021) Foto: Divulgação
Peter Dinklage e Haley Bennett em ‘Cyrano’ (2021) Foto: Divulgação

Acho que Cyrano é apaixonado pelo amor, e muitos de nós somos, mas não temos ideia do que seja. Eu sempre penso, bem, e se Cyrano realmente conseguisse o que queria? Ele e Roxanne começariam a se irritar um com o outro? Ele a ama porque a mantém em um pedestal? Eu acho que muitas pessoas fazem isso. Elas não querem chegar muito perto. Querem saber as coisas boas, não as ruins.

Como você se sentia em relação ao amor quando tinha 20 anos? Você estava apaixonado pela ideia de amor?

Sim, acho que sim. Eu acho que há um tom de “Morro dos Ventos Uivantes” em todo amor quando você é mais jovem, sabe? “Romeu e Julieta” não foi escrita para pessoas de 40 anos. Meus amores eram sempre não correspondidos, porque manter a distância era mais romântico do que se aproximar. Você se apaixona por pessoas que sabe que não vão retribuir, então fica ainda mais atormentado e não se interessa  por quem está interessado em você. É assim que meu cérebro funcionava, eu era um autossabotador quando jovem.

Como você lida com isso?

Você fica um pouco mais velho e percebe que isso não tem nada a ver. Mas tudo bem, porque aos 20 anos a vida de todo mundo deveria ser uma bagunça mesmo. Conheço muitos jovens profissionais ambiciosos de 20 e poucos anos e eles têm tudo, parecem não ter cometido nenhum desses erros realmente importantes. O contrário do que aconteceu comigo e com meus amigos. Quando tínhamos 20 anos, em Nova York, e saíamos para beber a noite toda, fumar cigarros e uivar para a lua. Éramos apenas bobos, e era divertido.

Você se lembra da primeira vez que viu Erica?

Claro. Foi há cerca de 18 anos. Estávamos todos na casa de um amigo e alguém disse: “Estão levando os elefantes pelo túnel Queens-Midtown.” O circo estava na cidade e nevava, e eles estavam levando os elefantes para passear por Manhattan, uma longa fila. Era como algo saído de um filme lindo, fantástico, do fim do mundo, louco e romântico. Viu? Sempre penso em filmes. Então, nessa noite nos conhecemos, a noite em que os elefantes caminharam por Manhattan.

Você já superou essa tendência de se atormentar com o amor?

Acho que ninguém consegue fazer isso por si próprio. Outras pessoas fazem isso por você. Se você teve a sorte de experimentar o amor, ele simplesmente se apodera. Você não controla o sentimento, mas pode escolher o que fazer com ele.

O que é parte do problema de Cyrano, que se sente indigno do amor.

Fui criado como católico irlandês, então me sinto indigno de tudo. Espero que esse filme fale sobre isso, a sensação de falta de valor pela qual todos passamos. Quando você encontra alguém que você ama, de repente ela é tão importante e poderosa que você pensa: “Eu não mereço isso? É muito maior do que eu.”

Você acha que Erica tirou o nariz falso e recriou Cyrano com você em mente para o papel?

Inconscientemente, talvez, porque já trabalhamos juntos antes e somos parceiros na vida. Mas eu definitivamente não acho que ela substituiu o nariz pelo meu tamanho em termos de diferença física do personagem. Ela queria desenterrar algo. É mais ou menos o que eu faço: quando abordo um papel, não penso como alguém do meu tamanho, mas como um ser humano com várias outras complicações.

É engraçado como, ao falar sobre este filme, me perguntam: “Qual é a sensação de interpretar um protagonista?” Isso faz parte da conversa porque ainda somos dominados por clichês. O domínio do herói romântico é de lindos homens brancos há cem anos. É o que nos servem, como no Burger King, e se comemos, eles servem mais. Mas meus cineastas favoritos são aqueles que correm riscos, como Hal Ashby. Eu adoro “Harold e Maude” porque olhe quem são os personagens românticos. É um filme brilhante.

Nos anos 90, você disse numa entrevista: “O que eu realmente quero é interpretar o herói romântico e ficar com a garota no final”.

Eu acho que estava falando mais sobre como eles constroem a narrativa, e como isso é uma forma de alegria. Eu já tinha feito alguns papeis divertidos, mas todos como coadjuvante. A continuidade do personagem é uma parte importante do segredo do cinema. Se você entra para uma ou duas cenas, pode até colocar alguma dinamite, se divertir, mas então sai de cena, não há arco real para a sua narrativa.

O que considero fascinante em “Game of Thrones”, e atrai muitos atores para a televisão, é a possibilidade dessa construção gradual. Por exemplo, o personagem do irmão de Tyrion, Jaime, empurra uma criança pela janela no final do primeiro episódio. Mas, duas temporadas depois, ele é um herói para o público. Você esqueceu que ele empurrou uma criança pela janela? É uma loucura como surfamos nessa narrativa e ela nos leva onde quiser. Eu pude fazer isso com Tyrion e é possível fazer isso num filme se você for o protagonista, embora seja preciso condensar um pouco mais.

Como você encarou a fama no auge da mania de “Game of Thrones”?

Tyrion Lannister (Peter Dinklage) Foto: Divulgação
Tyrion Lannister (Peter Dinklage) Foto: Divulgação

É uma miríade de reações que recebo diariamente. As pessoas têm boas intenções, mas quando você está andando na rua com seu filho e começam a tirar fotos sem perguntar… Eu começo a falar, mas então paro, porque um ator reclamar disso reflete mal. Todo mundo pensa: “Você tem uma vida ótima. Porque não posso tirar uma foto sua? Você é um artista, é meu direito.”

Mas não é essa a questão. É um problema humano, não sou um animal de zoológico. Eu sou uma pessoa. Digamos que eu esteja tendo um dia muito ruim ou acabei de desligar o telefone e você está bem na minha cara. Devo sorrir para você? E por que você não conversa comigo? Na maioria das vezes, as pessoas tiram fotos sem pedir e, às vezes, quando eu respondo, mesmo que gentilmente, elas não dizem nada porque ficam surpresas por eu estar falando com elas. É realmente selvagem. Se você é fã do que eu faço, por que me retribui assim?

Por que você acha que as pessoas agem dessa maneira?

Eu acho que muitas pessoas se distanciaram totalmente umas das outras. Os celulares com câmera se tornaram seus dedos, uma extensão de si mesmos, e eles sequer pensam nisso, porque é assim que todo mundo vive. Atores muito mais famosos do que eu podem andar pela Broadway com o disfarce adequado, mas eu não posso fazer isso, então é difícil. Me mudei para Nova York para ficar anônimo: “Quem se importa? Ninguém olha duas vezes”. E agora, por causa da tecnologia, todo mundo olha.

George R.R. Martin queria que “Game of Thrones” durasse mais duas temporadas. Você concorda ou acabou no momento certo?

Era a hora certa. Nem menos, nem mais. Você não quer abusar da hospitalidade, embora eu não acredite que fosse possível para essa série. Mas acho que parte da reação negativa sobre o final foi por termos terminado a relação. Estávamos saindo do ar e o público não sabia mais o que fazer com suas noites de domingo. Eles queriam mais, então reagiram.

Tinha que terminar quando terminou, porque a grande qualidade da série era quebrar noções preconcebidas: os vilões se tornavam heróis e os heróis se tornavam vilões. Se você conhece história, quando acompanha o progresso dos tiranos, eles não começam como tiranos. Estou falando sobre — alerta de spoiler — o que aconteceu no final de “Game of Thrones”, com aquela mudança de personagem. É gradual, e adorei como o poder corrompeu essas pessoas. O que acontece com a sua bússola moral quando você experimenta o poder? Seres humanos são personagens complicados, sabe?

Eu acho que algumas pessoas realmente queriam um final feliz, embora “Game of Thrones” tenha deixado claro desde o início que não seria assim.

Eles queriam o lindo casal branco cavalgando em direção ao pôr do sol. A propósito, é ficção. Tem dragões. Sigam em frente. (risos) Não, mas o programa subverte o que você pensa, e é isso que considero fascinante. Sei que o nome era “Game of Thrones”. Mas no final todo mundo que se aproximava de mim na rua perguntava “Quem vai ficar no trono?”, e não sei porque se resumir a esse tema, a série era tão  mais do que isso.

Jon Snow (Kit Harington) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) no episódio final de 'Game of thrones', da HBO Foto: Divulgação
Jon Snow (Kit Harington) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) no episódio final de ‘Game of thrones’, da HBO Foto: Divulgação

Um dos meus momentos favoritos foi quando o dragão queimou o trono, porque acabou com toda aquela conversa. O que foi realmente irreverente e brilhante da parte dos roteiristas: “Cale a boca, isso não importa.” Eles sempre faziam isso, quando você esperava uma coisa e eles entregavam outra. Todo mundo tinha suas próprias expectativas enquanto assistia ao programa, mas nenhuma foi tão boa quanto a que foi entregue, eu acho.



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